Unreal Estate – Projetos Fantásticos… ou nem tanto

Título: Unreal Estate (2017)
Designer: Jason Slingerland
Arte: Corinne Roberts
Editora nacional: Geeks n’ Orcs
Nº de jogadores: 2 a 5 <Ponto de Atenção!

Unreal Estate chegou sem alarde, chegando com a leveza de passos élficos, em território nacional. A proposta do jogo é ser um filler (aqueles jogos rapidinhos que preenchem espaços da noite, como antes do atrasado chegar ou até ouvir a buzina do motoboy com o lanche) leve e rápido para 2 a 5 pessoas, coisas que consegue fazer, em partes.

NOTA: Este texto terá poucas imagens, pois não tem muito o que mostrar mesmo!

Critérios

  • Arte

Unreal Estate, traz um misto de sentimentos em diversos critérios, e o primeiro que abordo é a arte. A arte presente nas cartas e no tabuleiro de marcação de pontos (que é igual à caixa) é sensacional. São ilustrações que aparentam serem feitas à mão e pintadas com uma mistura de lápis de colorir e aquarela, passando uma ideia bem original, devido a sua bela execução, além de serem diversos tipos diferentes de construções, todas com pequenos toques e detalhes característicos às raças de fantasia fantástica a qual pertencem.

Contudo, nem tudo é elogio em relação à ilustração, pois a fonte escolhida (o formato das letras) não é de uma leitura tão clara. Além disso, a versão nacional conta com alguns marcadores sem nenhum tipo de ilustração, completamente lisos, apenas coloridos em cores diferentes para identificar os jogadores, algo que achei preguiçoso, uma vez que o cartonado possui algumas ilustrações nos demais marcadores que compõe a mesma lâmina de impressão.

Em relação a iconografias são apenas três e vistas poucas vezes durante a partida. Elas são de fácil entendimento, porém uma delas junta as outras duas e diferente do que normalmente imaginaríamos, isso representa uma terceira mensagem, não a soma dos dois símbolos, o que pode soar confuso no início. Vale salientar que o jogo é dependente de idioma, devido à algumas cartas de ação que possuem textos (estes com as fontes de leitura ruim que mencionei).

(algumas cartas do jogo)

  • Qualidade dos Componentes

Os componentes são um ponto fraco do jogo, em sua versão nacional. As cartas em si, que são o principal, são de uma qualidade boa e uma impressão de qualidade, contudo o jogo possui marcadores sem graça, pequenos e com uma gramatura fina. A caixa, apesar de bem grossa e resistente, não possui nenhum tipo de cuidado interno, como um berço de papelão para as cartas.

Um elemento que realmente chama a atenção pela baixa qualidade é o manual, e por alguns motivos: O tamanho, pois ele é mais alto que a caixa! Sim, o manual não cabe na caixinha sem ser um pouquinho dobrado, tanto que para solucionar o problema cortei um pedaço na parte de baixo; A tradução, pois além de erros grosseiros que afetam a preparação e o decorrer do jogo, possuem uma evidente pobreza na diagramação nacional, onde inclusive conseguimos perceber um local onde a ilustração foi pobremente recortada do manual original para ser colada no manual brazuca (as bandeirolas amarelas e azuis no item Preparação), além das artes presentes no manual nacional serem as cartas não traduzidas (logo, outro ‘copia e cola’); Outro motivo, que pode soar bobo para alguns mas para mim é bem sério, foi a falta de respeito com os autores e a obra original, isso pois a editora nacional simplesmente retirou do manual um trecho inteiro onde o autor agradece amigos e colaboradores que ajudaram o jogo a sair do papel, substituindo-o por um trecho onde a editora BR fala dela mesma. Pode parecer algo fútil, mas como entusiasta no hobby e conhecendo o lado dos designers amadores, achei que isso pegou bem mal. Remover dedicatória, Geek’s n Orcs? Sério?… …Nada contra vir uma propaganda sobre a editora dentro da caixa, mas façam de forma que não retire os créditos de quem merece!

(alguns componentes do jogo (marcador de primeiro jogador e marcadores de ponto)

  • Curva de Aprendizagem

Unreal Estate é um jogo leve e super fácil de jogar, daqueles que conseguimos jogar com crianças (contanto que consigam fazer contas matemáticas básicas de multiplicação) ou com aquela tia-avó que curte um baralho velha guarda! No jogo, os jogadores irão se alternar para fazer uma ação entre duas possíveis, que consistem em pegar carta da mesa ou descer cartas iguais de sua mão e pontuar (caso exista ao menos uma carta igual em uma área de jogo específica na mesa). Só isso. Eventualmente entram cartas de ação que criam alguma situação, mas todas possuem um texto simples e objetivo que é lido na hora que a carta surge.

Dessa forma, Unreal Estate se apresenta como uma excelente opção para jogar com pessoas que estão iniciando no hobby ou até mesmo que não tem o mínimo interesse em jogos de tabuleiro. Por outro lado, jogar com pessoas experientes entrega uma malícia e leitura de mesa e oportunidades interessante o suficiente para que os jogadores fiquem bem engajados durante os quinze ou vinte minutos de partida (sim, é rapidinho assim mesmo).

  • Presença de Tema

O jogo não é um belo exemplo de adequação mecânica-tema, sendo um jogo daqueles que qualquer tema de ‘coisa colecionável’ funcionaria até melhor. Em Unreal Estate (Propriedade Fictícia, em tradução livre), cada jogador representa um arquiteto/construtor contratado pelo Conselho da Cidade para construir um distrito na fantástica cidade e… e… é isso. Essa linha define o título (inclusive não é muito mais que duas frases que o manual usa para entregar o tema).

De uma forma geral, é ok, os jogadores irão encara-lo como um jogo abstrato de baralho, com cartas bem ilustradas, nada muito mais elegante ou requintado do que isso. Mecanicamente, cada carta que o jogador pega é como se fosse um projeto e quando pontua seria a execução dele, logo o jogador com mais pontos ao final da partida representa o arquiteto/construtor que levantou as melhores construções.

Como falei no Critério Arte, as ilustrações são charmosas e bem feitas, porém não faz sentido temático nenhum “pegarmos edifícios e descermos edifícios multiplicando os mesmos edifícios para representar a construção daquele edifício” (confuso, né? Mas é isso!).

  • Rejogabilidade

Unreal Estate é um jogo leve e rápido de cartas, o que sozinho não apresenta muito o que se descobrir de novo após algumas poucas partidas, além de não apresentar muitos caminhos estratégicos, o fazendo lembrar jogos de vaza ou carteado clássicos.

O jogo, contudo, apresenta um recurso interessante que consegue trazer uma boa rejogabilidade para sua proposta rápida: As cartas de Construções Especiais (as cartas com a bandeirola azul). Existem 10 tipos de cartas diferentes, com 2 unidades de cada, e em cada partida sempre entram de forma aleatória e sem os jogadores saberem quais são, apenas seis. Esse fator agrega um efeito surpresa à mesa, além de inúmeras combinações e possibilidades, onde algumas cartas conseguem mudar levemente o rumo da partida, dependendo do momento em que aparecem.

* Interação

O jogo possui uma interação direta entre os jogadores, onde cada ação de alguém na mesa impacta diretamente os outros. Essa interação se dá na compra de cartas ou quando um jogador pontua, tirando dos demais a possibilidade de pontuar prontamente com o mesmo tipo de carta. Além disso existem algumas cartas dentre as Construções Especiais que interferem diretamente com outros jogadores, como por exemplo “roubar metade dos pontos de alguém quando ele pontuar”.

Neste critério farei a primeira observação em relação ao ponto de atenção lá do topo do texto, na ficha técnica, “Número de Jogadores”: Unreal Estate pode ser jogador de 2 a 5 jogadores, contudo, a dinâmica com diferentes contagens muda muito. Em relação ao Fator Interação, quando se joga com 2 jogadores é possível (e muito necessário) ler e decorar as cartas que o adversário compra, para evitar ser bloqueado e bloqueá-lo de pontuar, agregando um elemento de memória ao jogo, além de termos um maior controle sobre as cartas que sobram na mesa (que poderão no futuro ser pontuadas). Porém em mais jogadores (principalmente 4 ou 5) fica bem difícil criar este controle mental do que foi comprado e por quem, logo o jogo deixa um sentimento de menor interação proposital na pontuação, algo que não é necessariamente ruim, mas vale ser mencionado pois este fato voltará ao texto mais vezes.

  • Fator Sorte

Apesar do elemento de sorte presente na abertura das cartas na mesa, Unreal Estate não sofre negativamente pela aleatoriedade que traz à mesa. Algo que entra neste critério e deve ser ressaltado é (novamente) em relação a jogar com diferente quantidade de jogadores. Durante a partida existem 5 cartas dispostas abertas na mesa, onde com 2 jogadores, eles se alternam, enquanto com 3 ou mais, cada jogador pega apenas uma carta. Isto diminui o planejamento, uma vez que toda rodada, em 3 ou mais pessoas, irá aparecer uma carta nova, diferente de quando se joga em 2, onde os jogadores possuem um controle maior, pois conseguem escolher dentre mais opções de cartas e sempre tem a sua disposição ao menos uma que sobra na mesa por rodada, diminuindo o elemento de sorte nesta aparição de cartas entre rodadas.

  • Fator Estratégia

Unreal Estate é um daqueles jogos leves e rápidos, porém inteligentes, que conseguem deixar jogadores engajados através de apenas uma mecânica principal, a executando com excelência. No caso de Unreal Estate, esta mecânica é a coleção de componentes, aliada a um leve fator de arriscar a sorte. O diferencial é que a sorte arriscada depende diretamente dos adversários, afinal eles que irão decidir quando pontuar e com quais cartas, logo o elemento Estratégia é sempre presente durante a partida, pois cada jogador precisa analisar a cada rodada qual a melhor tática: Juntar mais cartas, sob o risco do adversário pontuar em sua frente; ou Pontuar logo para não perder a chance e até mesmo bloquear os adversários. Dessa forma, Unreal Estate é um jogo de timing (julgamento do que é melhor a se fazer e em qual momento).

Aqui, mais uma vez… vou escrever sobre “Jogar com diferentes quantidades de jogadores”. Para o Fator Estratégia, o peso de se jogar com diferentes contagens é relativamente similar aos pontos levantados nos Fatores Interação e Sorte, onde com menos jogadores conseguimos uma melhor leitura da mesa, logo do adversário, além de um controle maior das possibilidades futuras, devido às cartas abertas na mesa e o fato de, em 2 jogadores, ocorrerem turnos alternados.

Prezado leitor, se você chegou até aqui, deve ter notado que o jogo possui pontos fracos em relação aos componentes e ao apelo do tema, além de ter sido levantado por três vezes diferenças em relação a se jogar com duas pessoas ou com três ou mais. Apesar destes problemas, quero deixar claro que O JOGO É MUITO BOM… com dois jogadores. Com três ou mais, é um jogo ok, que irá agradar mais uns do que outros, porém ele perde boa parte de sua graça, pois fica bem difícil ler e marcar os adversários. Emitindo uma opinião pessoal, jogar com 2 jogadores fica bem mais divertido, pois fica mais apertado, com cruzadas de olhares e a quase-existência de blefes (um sentimento similar, porém mais leve, do que vemos em Holmes: Sherlock & Mycroft, jogo que possui análise em: Ludopedia | Fórum | (Análise) Holmes: Sherlock & Mycroft – Casos de Família! | Holmes: Sherlock & Mycroft). Por outro lado, jogando com mais pessoas o jogo se torna solto, com quase nenhuma marcação e devido a proposta do jogo, ele não fica tão divertido pois não provoca muitas reviravoltas ou surpresas na mesa, como jogos concorrentes de semelhante peso costumam apresentar. Sinceramente, acredito que o jogo deveria ser apenas para duas pessoas e por algum motivo acabaram colocando mais jogadores, ignorando a diferença (e é grande) do sentimento que cada contagem proporciona para a mesa.

(Imagem retirada do manual. Note que 2 pessoinhas estão mais destacadas. Mensagem subliminar?!)

Opinião Pessoal

“ Unreal Estate foi um jogo que me surpreendeu de ambas formas possíveis: Positivamente ao jogar em duas pessoas e negativamente, ao jogar com mais de duas pessoas. Mecanicamente o jogo funciona (quase) igual, porém o sentimento na mesa é completamente oposto. Se você costuma jogar em duas pessoas e gosta de jogos onde a leitura de oportunidades é a chave, Unreal Estate é um jogo barato que vai cumprir bem seu papel. Contudo, se costuma jogar sempre em galera, existem centenas de melhores opções no mercado. Aplausos à artista, Corinne Roberts pelo belo trabalho, grande responsável por ter chamado minha atenção ao o jogo.” (Raphael Gurian, o jogador de amarelo (quando tem!))

“ Unreal Estate é um jogo de partidas curtas, que exige um raciocínio rápido para tentar pontuar o máximo possível e mais rápido que seus adversários, pois as cartas de projeto entre uma jogada e outra podem não estar mais disponíveis para você ganhar seus pontos com cartas compradas, que estão em suas mãos. Uma hora você pode frustrar os outros jogadores, outra hora você pode ser o jogador frustrado. Apesar disto, o jogo possui uma arte muito bem feita. Infelizmente este não é um jogo de mecânica imersiva em sua temática, apesar do termo usado “projeto”, pois os desenhos de castelos basicamente se atêm a uma construção já pronta e suas cartas de habilidades extras trazem elementos da Terra-Média, como construções de criaturas, que desviam do objetivo da história, apesar da mesma temática. Contudo, ainda assim é um jogo leve para se passar o tempo.” (Heloisa Fernandes, a jogadora de vermelho (esse quase sempre tem!))

Um texto de
Raphael Gurian

A ideia deste formato de análise não é explicar um jogo, para isso existem muitos outros textos, vídeos e etc. A finalidade do texto é fazer uma análise crítica acerca de critérios que acho importante e que muitas vezes acabam não sendo explorados em reviews de uma forma mais detalhada. Os jogos analisados não seguem qualquer critério comercial, incentivo ou pagamento, sendo escolhidos com base em fontes de vozes da minha cabeça, aliado ao fato de ter já jogado o jogo em questão muitas vezes, a ponto de me sentir confortável em opinar sobre o mesmo.

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