“Reclamar é enxergar-se no espelho da própria ignorância.”
-Chinmoy, Chandelier, Sri Aurobindo Ashram, 1959
Uma colega postou sobre a dificuldade em vencer alguns jogos solo. Um mês atrás peguei o excelente Cosmos para jogar sozinho. Da primeira vez que joguei, anos atrás, levei 7 partidas para vencer. Recentemente, joguei umas 4-5 partidas e não cheguei nem perto. Não consigo lembrar o que não via mais! Teria que me reensinar a ver aquele ângulo esquecido. Foi quando o aforismo do espelho que abre este post me inspirou.
Comigo, o que acontece com os jogos solo difíceis de vencer é que a dificuldade ainda está ali porque não me abri para uma possibilidade a explorar. Talvez não tenha mergulhado fundo e sem medo numa das veredas do jogo.
Para dar exemplo, se vc jogar Pandemic com um pessoal novo nesse jogo (e foi comigo assim também), eles vão querer ficar tirando os cubos de doença para não perder por surtos. Só que não perder por surtos não ganha o jogo, pois você perde por falta de cartas (tempo).
Encare perdas de recursos ou riscos eletivos no jogo como um recurso
Uma estratégia que passa a ser necessária é realmente correr atrás de pesquisar a cura de cada doença, por vezes deixando um ou outro surto acontecer num lugar pra conseguir encontrar a cura logo (a trilha de até 7 surtos você pode enxergar como um recurso: posso gastar 7 surtos até o fim do jogo e ainda ganho). E encontrar a cura é custoso em ações, porque os personagens precisam se encontrar em cidades específicas. Mas, sem isso, não vai conseguir ganhar (a nao ser por MUITA sorte ao comprar cartas sempre da cor certa)
Ontem joguei Pandemic Iberia solo e lembrei de outro exemplo. No pandemic Iberia, não tem avião, etc. Tem o navio, mas só funciona na costa. Para acessar rapidamente o centro do tabuleiro, você precisa colocar ferrovias, mas é um processo lento, tem que ir fazendo desde o começo do jogo, pra do meio pro fim você conseguir ir rapidamente de um lugar ao outro.
Jamais deve buscar a coisa em si, a qual depende somente dos espelhos.
A coisa em si, nunca: a coisa em ti.
Um pintor, por exemplo, não pinta uma árvore: ele pinta-se uma árvore.
E um grande poeta - espécie de rei Midas à sua maneira - um grande poeta, bem que ele poderia dizer:
Tudo que eu toco se transforma em mim.
-Mario Quintana
O “Professor Derrota”: quando o desafio no jogo é o nosso próprio desafio
Esses desafios fazem justamente a gente ter de repensar como olhamos o jogo. Talvez nesse seu jogo, você precise enxergar uma forma nova de encarar, arriscar, etc. É uma coisa que passamos na vida quando temos grandes desafios também.
Os livros são espelhos: neles só se vê o que possuímos dentro.
-Carlos Ruiz Zafón
Os jogos não são tão diferentes – só vemos as possibilidades estratégicas que conseguimos compreender, ou seja, limitadas. A derrota nos mostra, como um professor, que não vimos algo importante. Para encontrar, precisamos desenvolver alguma nova faceta – mais sensibilidade, ou coragem, ou paciência, ou dinamismo. Qual delas ainda lhe falta? E, mesmo ao achar que já tem alguma delas, virá um novo desafio na vida mostrando que lhe falta muito mais dessa qualidade do que você tem agora. Se não fosse, a vida seria monótona de eventos e com menor progresso.
Contente-se apenas com o máximo
No Oh My Goods (+ revolta em Longsdale), que gosto muito solo, aprendi depois de várias derrotas a fazer um esboço de cadeia de produção a se cumprir até o fim da partida, de acordo com a mão de cartas que vem na primeira rodada. Não adianta ficar tentando mediocridades, porque vai perder a partida. Tem que ir pelo máximo, se arriscar para tentar alcançá-lo. E o legal é que nas primeiras partidas você até se vira e consegue passar na mediocridade. Chegando nos últimos cenários, não há piedade – ou você faz uma partida perfeita, ou perde. E, se você estiver jogando afiado, sem medo, mergulhando fundo… então as coisas começam a acontecer… as cartas vêm na hora certa… seus “erros” desta rodada viram acertos na rodada seguinte… e você percebe que já não está mais jogando sozinho.
Deus quer que eu faça
Apenas o meu melhor possível.
O restante Ele está mais do que pronto
Para fazer por mim.
-Sri Chinmoy
Seventy-Seven Thousand Service-Trees, part 23, Agni Press, 2001
