Fala, Ludonautas!
Eu acabei de ler no BGG um top 10 de jogos cooperativos feito pelo canal The Geek (@boardgamegeektv) que gerou uma discussão gigantesca nos comentários. A lista traz:
1) Slay the Spire: O Jogo de Tabuleiro
2) A Tripulação: Missão no Fundo do Mar
3) The Elder Scrolls: Betrayal of the Second Era
4) Spirit Island
5) O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel.
6) Wilmot’s Warehouse
7) Primal: The Awakening
8) Paint the Roses
9) Marvel United
10) O Senhor dos Anéis: Sina da Sociedade
Confesso que a lista em si já é interessante, mas o que realmente me prendeu foram os comentários - dezenas de jogadores argumentando, concordando, discordando, sugerindo alternativas como Pandemic, Cthulhu Death May Die, Arkham LCG, Gloomhaven, Hanabi, Sky Team e por aí vai. E foi lendo essas opiniões apaixonadas que percebi um padrão: existem pelo menos três “tribos” bem distintas de jogadores cooperativos, cada uma com valores e preferências completamente diferentes. Achei isso tão fascinante que decidi trazer essa reflexão para o nosso público aqui, porque entender qual tribo você pertence pode mudar completamente como você escolhe seus próximos jogos cooperativos. ![]()
A primeira tribo que identifiquei é a "Tribo Puzzle" - aqueles jogadores que amam cooperativos pela otimização matemática, desafio cerebral puro e mecânicas elegantes. Esses são os fãs de jogos como The Crew, Hanabi, Spirit Island e Paint the Roses. Nos comentários, vários jogadores destacaram exatamente esses títulos como favoritos absolutos, e até o designer Dominic Crapuchettes (de Paint the Roses) apareceu emocionado por ver seu jogo na lista.
O que une a Tribo Puzzle, no meu entendimento? A busca por eficiência máxima, comunicação limitada que força pensamento estratégico, e aquela sensação gratificante de “resolver” um problema complexo em conjunto. Eles geralmente detestam aleatoriedade de dados e elementos narrativos forçados - querem sistemas limpos onde a vitória vem de raciocínio afiado, não de sorte ou drama temático. Um jogador mencionou que adora jogos de comunicação limitada porque forçam cooperação genuína ao invés de um alfa-player mandar em todo mundo. Outro elogiou Sky Team como “tão bem pensado, fácil de aprender e único para dois jogadores”. Para a Tribo Puzzle, o tabuleiro é um quebra-cabeça vivo, e cada decisão é uma peça que precisa se encaixar perfeitamente.
A segunda tribo é a "Tribo Narrativa" - jogadores que querem campanha, história, progressão de personagens e investimento emocional profundo. Esses são os devotos de Pandemic Legacy (Seasons 1, 2 e 0), Gloomhaven, Sleeping Gods, Arkham LCG e ISS Vanguard. Nos comentários, um jogador falou de ISS Vanguard e Regicide Legacy com entusiasmo genuíno, enquanto outro listou Arkham LCG como número 1 absoluto e destacou Sherlock Holmes Consulting Detective como o primeiro cooperativo que jogou em 1992 - ainda no top 10 dele depois de 34 anos. Na minha percepção, o que define a Tribo Narrativa? Eles não querem apenas vencer ou perder; querem sentir a jornada, ver personagens evoluírem, tomar decisões que impactam a história, e carregar consequências de uma sessão para outra. Para eles, mecânicas são ferramentas a serviço da narrativa, não o contrário. Um jogador admitiu que “se cansou da fórmula de puzzle repetitiva” e agora prefere jogos legacy/campanha que oferecem arcos narrativos completos. A Tribo Narrativa está disposta a investir 20, 50, até 100 horas numa única campanha porque o que importa não é resolver o quebra-cabeça - é viver a história junto com seus amigos.
A terceira tribo, e aqui me confesso completamente inserido, é a "Tribo Ação" - jogadores que preferem dados, combate tático, miniaturas na mesa e aquela adrenalina de enfrentar monstros cooperativamente. Esses são os fãs de Cthulhu Death May Die, Primal: The Awakening, Marvel United, Mansions of Madness e The Reckoners. Nos comentários, a ausência de Cthulhu Death May Die gerou revolta em pelo menos três pessoas, com um deles dizendo que até Zee Garcia (conhecido evangelista do jogo) ficaria furioso. Outro jogador listou Cthulhu Death May Die como número 4 no top dele, perdendo apenas para Spirit Island, Arkham LCG e Primal. Segundo o que eu entendi, o que nos une? A busca por momentos épicos na mesa - aquele turno onde você rola seis dados, acerta todos, derrota o boss e todo mundo grita comemorando.
A Tribo Ação adora componentes lindos (miniaturas pintadas são quase obrigatórias), regras de combate satisfatórias, poderes especiais chamativos e aquela sensação de “nós contra o mundo”. Um jogador mencionou Leviathan Wilds especificamente pela flexibilidade de habilidades que criam “sensação de cooperação on-the-fly, ajudando a bloquear ataques ou dar boost de dano”. Para nós da Tribo Ação, cooperativo bom é aquele onde você sente fisicamente a batalha acontecendo - e quando você vence, não é porque resolveu um puzzle elegante, é porque sobreviveu ao caos e saiu vitorioso.
O mais interessante dessa análise é perceber que essas três tribos raramente concordam sobre o que faz um “grande cooperativo”. A Tribo Puzzle acha jogos de dados aleatórios demais e narrativas longas desnecessárias. A Tribo Narrativa considera puzzles abstratos emocionalmente vazios e combate tático superficial. A Tribo Ação fica entediada com otimização matemática e não quer gastar 100 horas numa campanha - quer ação imediata. E tudo bem! Nos comentários do BGG, um jogador foi cirúrgico: “essas listas precisam de subcategorias - top 10 para casuais, top 10 para rápidos, etc”. Ele tem razão. Quando alguém pergunta “qual o melhor cooperativo?”, a resposta correta não é um jogo - é uma pergunta de volta: “melhor para quê?”. Se você quer desafio cerebral puro, vá de Spirit Island ou Hanabi. Se quer saga épica de 50 horas, Gloomhaven ou Pandemic Legacy. Se quer porrada com miniaturas e dados, Cthulhu Death May Die ou Primal. Entender sua tribo não limita suas escolhas - pelo contrário, te ajuda a gastar dinheiro e tempo com jogos que realmente vão te satisfazer. E quem sabe você descobre que pertence a mais de uma tribo, ou transita entre elas dependendo do humor. O importante é saber que no vasto mundo dos cooperativos, há espaço para todos - desde que você saiba onde procurar.
Abraços!


