Pipeline: A Beleza Está nos Óleos de Quem Vê

Pipeline: A Beleza Está nos Óleos de Quem Vê

Uma análise atrasada, e bastante ácida, de um dos queridinhos de 2019.

Excelente foto direto da editora, Capstone Games.

O Contexto

“O tal do Pipeline”, um jogo que fez muito burburinho em 2019, mas acabei não tendo a oportunidade de jogar. Na verdade, na época, ao ver as imagens do jogo ele me parecia “fiddly” demais, cheio de pecinha e coisinhas. Detesto jogos que precisam de um estagiário pra fazer setup, então acabou ficando de lado.

O tempo passou, e de alguma forma os leilões da Ludopedia fizeram ele aparecer no meu radar novamente. Fui ler as regras e fiquei impressionado com a simplicidade. Além disso, a idéia de sair conectando aqueles tubos todos parecia divertido, nostalgia da época jurássica dos PCs que tinham aquele jogo de montar canos antes que a água transbordasse, lembram disso? Enfim, comprei, joguei, e vendi. Isso tudo em menos de 7 dias. Me acompanhe nessa história:

Disclaimer : Só joguei 2x o jogo. Se você é daqueles que acha que deve existir uma lei impedindo produtor de conteúdo de tecer sua opinião antes de ter jogado 100x e ter no mínimo duas graduações de resenhas de jogos pela URL (Universidade de Resenhas da Ludopedia), pode parar por aqui e ir lá escolher algum outro material do seu produtor de conteúdo patrocinado pela Galápagos preferido. (Nota do Jow: A opinião não reflete a posição do Spiel des Djows, Galápagos, pode continuar patrocinando a gente!)

O Bom

  • O quebra cabeça dos canos é divertido, acho que só queria isso. Curious Cargo é o que preciso?
  • As regras base são absurdamente simples, até vi críticas sobre o manual ou algo do tipo (só tenho um porém, ver abaixo), mas sinceramente não procedem. Jogo fácil de explicar e jogar, no entanto, absurdamente difícil de se jogar bem.
  • É um Design Limpo. Consigo reconhecer que é um jogo bem feito e redondo, porém para um público específico de… workaholics. Explico abaixo.
  • A caixa do jogo é MUITO bonita.

Foto: Capstone Games.

O Ruim

  • Para mim, o jogo apela excessivamente para o que eu chamaria de “Complexidade por Complexidade”. Você sabe o que tem que fazer para chegar na solução ideal, mas é muito trabalhoso fazer o cálculo para chegar a tal. Você tem que (1) validar a sua capacidade de armazenar óleo, (2) ver o cano que você precisa comprar para conseguir promover o óleo de nível, (3) ver quantos turnos você tem até cumprir o contrato, (4) escolher o contrato, (5) ver onde vai comprar os barris, (6) adicionar uma margem de segurança por flutuação de preço, (7) ver o custo de processamento que muda a cada setup e por ai vai… Apesar do jogo não ser um multiplayer solitário, ao menos nas primeiras partidas é difícil alguém furar seu olho, então as informações estão completamente abertas e é só questão de você ter paciência de calcular a jogada ideal. Isso é chaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaato demais. Realmente me vi em situações que eu parei no meio, e só “chutei” a melhor decisão para não impactar tanto o downtime.
  • Não sei o que eu esperaria de um jogo sobre processamento de óleo, mas o fato da capa do jogo (que é excelente) estar replicada no board do jogo, me faz parecer que houve uma preguiça artística por parte do aclamado Ian Toole. É o foco do jogo? Não, mas esperava mais do TODO PODEROSO artista que de fato faz um bom trabalho (normalmente).
  • As regras do jogo falam para você manter o controle dos seus maiores pipelines por cor, inclusive a versão KS vem só com três marcadores para isso. Porém é possível ter mais de um pipeline para a mesma cor o que faz não ter peças o suficiente para contabilizar tudo. No BGG sugerem usar um dos marcadores de óleo, mas então os extras do KS meio que ficam sobrando. UX Bizarra. Ian Toole não estava inspirado mesmo.

O Neutro

  • O jogo tem um setup que gera uma variabilidade grande entre partidas, mas é daquele tipo que não muda radicalmente o jogo. Preços de conversão entre os barris de óleo variam em toda partida, mas isso não vai mudar drasticamente seu feeling de jogo. O jogo acaba sendo “sempre o mesmo”, não é como se um mecanismo específico do design fosse mais valorizado em determinado de setup, só a matemática que muda.
  • Tenho a impressão que o jogo poderia ter evitado completamente a dependência de idioma, ainda mais sendo feito pelo Ian Toole. O texto nas cartas não chega a ser um problema em si, mas imagino que possa afastar alguns jogadores.
  • Se você queria um Boardgame da Trilogia Matrix, você achou. O tema aqui é inexistente, você só vê número, se o jogo fosse verde, deveria vir com óculos escuro e sobretudo nos extras do KS. (Nota do Jow: boa anedota)

Conclusão

Pra mim, decisões são divertidas quando apresentam sempre uma dualidade (ganho aqui e perco ali). Jogos com uma interação maior (como Pax Pamir), acabam fazendo com que nunca exista uma escolha “certa”. Pra mim Pipeline corre exatamente pelo lado oposto, onde existe uma escolha ideal na maioria das vezes. O ponto no entanto é que para chegar nesse valor, você precisa de uma planilha de Excel ou uma matemática manual excessivamente chata para chegar na conclusão certa. Power Grid também sofre disso em alguma escala, mas acho que a comparação seria Matemática Primária vs Cálculo III do curso de Contabilidade. Prefiro um Design que pule esses cálculos todos eu eu consiga ver direto as decisões que realmente importam. Bom, ele é um econômico afinal, e talvez isso não seja a minha praia.

Assim como o desgastante On Mars, Pipeline é mais um “simulador de trabalho com as partes ruins inclusas”. Eu realmente não consigo extrair muita diversão dele, apesar de reconhecer que mecanicamente é sólido. Quando jogo esses jogos, acho que entendo o que o Marcius Fabiani quer dizer quando sai xingando os “euros moderninhos” e clama por Dinossauros, Zumbis e Metralhadoras. Talvez se meus pipelines pudessem explodir, ou tivesse um módulo brasileiro sobre o Petrolão o jogo se tornasse mais atrativo. Mas da forma que ele é, ele é só um simulador de trabalho, que não é de todo ruim, mas não é pra mim.

Selo Spiel des Djows™ para “melhor simulador de trabalho para jogadores, com QI de mais de 9000, que amam tubos de conexão e óleo refinado”. Espero que o RFreitas (quem acabou levando a minha cópia) seja mais inteligente que eu, o que não é difícil (risos), para poder apreciar esse aclamado título.

Dizem que a beleza está nos óleos de quem vê, e talvez meus óleos não sejam refinados o bastante para apreciar esse aclamado jogo. Nota 5. Até jogaria, talvez me divertiria, mas em geral teria preguiça e preferia alguma outra coisa no lugar. (Sistema de Avaliação Spiel des Djows)

Nota: Foram 2 partidas em 2 jogadores.


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É… infelizmente esse também não caiu muito na minha graça. Não se se o “fator TTS” pesou, mas eu realmente não curti a quantidade de informações que você tem de monitorar o tempo todo (mesma crítica que tenho sobre o On Mars). Tudo bem que são 8 espaços de ação somente, mas é um porre você ficar caçando as peças de tubulação ou ficar vendo a montagem dos adversários (acho até um 18XX mais fácil de acompanhar o que tá rolando na mesa).

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Fator TTS, certamente deixou o que era ruim, PIOR. :stuck_out_tongue:

Mas realmente, OnMars e Pipeline andam juntos nesse sofrimento.

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Eu tive essa impressão que você teve só de ver resenhas e gameplays. Admito que não é o ideal, mas pra mim tinha ficado muito claro que era um jogo de fazer conta. Eu não gosto da expressão “simulador de trabalho” porque existe muitos empregos bem menos maçantes e enfadonhos por aí XD.

Bela análise e bom texto, parabéns.

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