Dois Ivans incomodam muito mais (Red Cathedral Solo)

THE RED CATHEDRAL SOLITÁRIO

DOIS IVANS INCOMODAM, INCOMODAM MUITO MAIS

Faz tempo que o mercado dos tabuleiros modernos anda meio louco, posso até dizer que fora da casinha em comparação com a vida pandêmica mundial. Não estou falando apenas do preço dos jogos, mas do nível histérico de corrida por devorar jogos e mais jogos incessantemente, sem transformar este consumismo em felicidade compartilhada (numa boa mesa de jogatina). E, parafraseando o mote da melhor série de televisão já feita na história da humanidade, é sempre importante lembrar que “a verdade está lá fora”. Então eu, no conflito entre querer experimentar um jogo diferente e não querer gastar muito dinheiro diante de tanta gente desesperada por emprego, comida e saúde, venci o ano passado contendo gastos, vendendo jogos para comprar outros, tentando apoiar iniciativas interessantes no contexto de pandemia e pesquisando jogos de tabuleiro mais baratos que entregassem uma experiência interessante dentro do meu perfil de tabuleirista (essa aprendi com as manas)!

Eis que soube que seria lançada a pré-venda do Red Cathedral, um jogo euro de caixa relativamente pequena, criado por Sheila Santos e Israel Cendrero, anunciado por um preço também relativamente amigável (cerca de R$ 150,00). E, sem abrir mão dos caminhos alternativos ao rolo compressor do hype, experimentei primeiro o Red Cathedral no Tabletop Simulator. Como amor sem paz é apenas fardo, pesei se estaria em paz adquirindo o jogo pelo preço que havia sido ofertado na pré-venda. E, logo na primeira partida, o “santo bateu” (como se diz na Bahia). Foi carinho à primeira vista, amor e uma boa jogatina! Mas nem toda a primeira vez define a relação. Joguei então mais três, quatro ou cinco vezes e tomei a decisão. Comprei! Tudo (nada) bem que a promessa de entrega era para poucos meses após a compra na pré-venda e que o jogo demorou quase 8 meses de gestação para chegar, mas o Baby Cathedral nasceu, ainda que muito tempo depois da data provável do parto. E ele está bem aqui ao meu lado.

Joguinho de tamanho humilde, porém de conteúdo denso, Red Cathedral mais tem componentes, cartas e tabuleiros do que espaço vazio em seu interior. Claro que se tirarmos os cento e noventa e cinco manuais, cada um em uma língua diferente, ele pesaria um tanto menos e gastaria um tanto menos de árvores ao mundo (coisas de uma sociedade mercadológica global em que os lucros são mais importantes que a vida). Só consegui ler as regras em português, javanês e quimbundo, as línguas que consegui aprimorar no tempo de espera pela chegada do jogo. Os componentes são de ótima qualidade, a arte é bastante bonita (apesar de o desenho interior do rondel ser um pouco confuso) e dá para sentir de forma relevante como o tabuleiro individual e as cartas que formam a catedral remetem aos trabalhos de construção, arquitetura e engenharia. Mas, por que?

Tudo começa com Ivan IV, ou Ivan, o Terrível, como era conhecido por aqueles que não eram ele mesmo. Ivan era tão terrível que matou o seu próprio filho, herdeiro a seu trono. Gente boníssima! Mas gritemos viva, pois Ivan fez a melhor coisa que um príncipe ou czar pode fazer para a humanidade: uma catedral vermelha? Não! Bater as adornadas botas! Até pelo simples motivo de que um príncipe não faz cálculo estrutural, não mistura a massa, não reboca parede ou carrega saco de cimento nas costas. Quem constrói o mundo são os trabalhadores, o resto é só indecência!

Então, após esta breve contextualização sobre Red Cathedral, podemos dizer que cada jogador figura como uma equipe de trabalhadores da construção (arquitetos, engenheiros, mestres de obras etc.) que, a mando de Ivanzinho do Terror que pretendia regozijar-se das vidas inimigas ceifadas na guerra contra o Kazan e Astracã, precisa levantar, nada mais nada menos (paradoxal?), que uma igreja: a Catedral de São Basílio! E como nem todo trabalhador sabe a força coletiva que tem para construir um mundo livre de tutelas, no modo multi-jogador os tabuleiristas precisam bajular o clero, conquistar favores das guildas, reivindicar os projetos das seções da catedral e construí-las (melhor ainda se com adornos).

Mas, como ouvi dizer que um grupo de tabuleiristas da pesada (https://jogamana.wordpress.com/) está chegando com uma resenha maravilhosa do jogo (recomendo então a leitura), desfiz as minhas seções do texto sobre o jogo com multi-jogadores (em respeito e admiração) e me pus em aventura pelo modo solo do Red Cathedral. Confesso que talvez jamais tentasse experimentá-lo sozinho tendo um Spirit Island aqui piscando os olhos espirituais para mim. Passava os olhos sobre o modo solitário no manual por várias vezes e não me interessava em saber do que se tratava. Então, devo dizer que sou eternamente grato pelo estímulo! Sabe por que? Por que no modo solitário nós jogamos CONTRA o arquiteto indicado pelo Ivan, o Terrível, que gostava tanto só de si que indicou um arquiteto de mesmo nome para competir comigo: Ivan Yakovlevich. “Malditos Ivans! Um já era ruim o bastante!” - pensei. “Construirei a Catedral Vermelha, transformá-la-ei num centro comunitário e jogarei os projetos do czar na lixeira da história”!

O modo solo não altera substancialmente o fluxo do jogo para 2+ jogadores, que pode ser resumido na execução de três ações básicas: (1) reivindicar o projeto de construção de uma seção da catedral; (2) construir alguma parte da catedral ou um de seus adornos, pagando pelos recursos necessários e (3) produzir recursos e conquistar favores das guildas através de um rondelzinho com dados super gostoso e interessante. Um dos pontos fortes do jogo é o controle de área pelas seções da catedral e adornos, pois as “colunas” que a compõem pontuam muito mais aos jogadores que possuem mais construções ou adornos em cada coluna.

Enquanto o jogador no modo solitário pode sempre escolher por uma dessas três ações, a equipe do czar faz as suas ações com base em 5 cartas que são postas numa ordem aleatória que ficará fixa até o final da partida. Cada carta representa uma das seguintes ações: (1) coletar 4 recursos quaisquer; (2) reivindicar uma seção da catedral; (3) transportar os recursos produzidos para a carta de construção; (4) construir uma seção da catedral pagando pela quantidade de recursos necessária, independente dos tipos de recursos e (5) ganhar 4 pontos de vitória. Após as 5 ações, a dupla Ivan & Ivan poderá ainda construir automaticamente um adorno na catedral!!! Logo, a cada 5 rodadas, o seu adversário autômato realizará grandes feitos que te forçarão a otimizar cada vez mais a sua máquina de construir e fazer pontos! E acredite: a disputa fica MUITO apertada!

Como a produção dos recursos do jogador depende da movimentação do rondel, sobre cada uma das 5 cartas de ação do Ivan é posto um token com a cor de um dos 5 dados do jogo. Quando cada carta de ação do Ivan é realizada, aquele dado indicado no token sobre a carta deve ser movimentado no rondel. Como o Ivan não produz recursos no rondel, esta movimentação somente serve para atrapalhar o planejamento do jogador. Um fator interessante é que como você consegue prever quais são os dados que serão movidos a cada ação do adversário autômato, é possível criar um planejamento estratégico de produção de recursos a médio ou longo prazo. As regras de onde posicionar as reivindicações do Ivan na catedral ou sobre onde produzir os adornos é bem tranquila e faz com que o adversário esteja sempre próximo tentando construir partes da catedral na mesma coluna que a sua, acirrando a disputa pela pontuação final de jogo.

Por fim, é preciso que eu diga que em todas as minhas partidas solo eu joguei com o tabuleiro individual no modo avançado de jogo (placar Bruno 3 x 3 Ivans). Portanto, as impressões que trago no texto são frutos da experiência neste modo. Como prometi ater-me apenas ao modo solo, posso dizer que fiquei bastante satisfeito com o Red Cathedral solitário, principalmente porque o adversário automa não requer a manipulação de milhões de componentes em etapas exaustivas e intermináveis. Se você gosta de uma jogatina solo e não tão demorada, Red Cathedral pode ser uma boa pedida. É um jogo que nem de longe pode-se chamar de leve, contudo ele é simples de regras e só um tanto queimador de neurônios (peso 2.77 no Board Game Geek).

O seu rondel dá um ar charmoso e de leveza ao jogo, que não acompanha a atmosfera tensa de quando você olha desesperado para a catedral e vê que o maldito Ivan está construindo a igreja e seus adornos na mesma velocidade em que o agronegócio constrói pasto dentro da Amazônia. A economia do jogo é simples, pois os recursos não têm valores distintos. Um ouro é um ouro, uma pedra é uma pedra, um barro é um barro e por aí vai. Contudo, a grande diversidade de recursos dá um toque especial na economia de Red Cathedral, pois há um limite de recursos a serem guardados em seu tabuleiro individual e, ainda que você tenha reivindicado muitos projetos de construção na catedral, para construí-los terá que correr atrás de uma enorme e suada variedade de recursos (o que não é tão fácil assim de conseguir).

Bem, acho que foram essas as minhas impressões. Ao meu gosto, o modo solo do Red Cathedral está aprovadíssimo! Caso tenham jogado o modo solitário, deixem as suas opiniões para construirmos um bom diálogo sobre esse modesto, porém maravilhoso jogo!

Abraços e vou cá destruir novamente alguns czares!

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